Um corpo novo, enfim

por telepatia

Chegou o dia em que Isaías foi testando ponto a ponto todas as articulações e percebeu que já era possível ganhar o espaço. Era a hora, já.

O velho cientista viu Isaías levantando-se enfim da maca e caminhando pela sala: um esqueleto de cristal, inteiro e vivo, sempre sorrindo.

Por dentro dele o fluido ímago-cor-elétrico-sonoro distribuía-se formando claramente um sub-esqueleto de fumaça líquida, interna ao cristal.

Quando essa fumaça líquida movia-se mais forte, Isaías se mexia, dava um passo, abria os braços. De novo um corpo, de novo todos os sentidos

E como enxergava ele, sem olhos? Por mera tradição Isaías criava olhos nas cavidades do crânio, em verdade podia enxergar em qualquer parte.

Isaías poderia ter uma visão de 360° graças a todos os lados do cristal que recebiam luz, ele mixava-se à estrutura e bebia da forma.

Ele tentou falar, expressar sua alegria com seu corpo e sentidos, seu novo estado, queria agradecer ao cientista que o ajudou. Tentou falar.

Ainda faltava muito para o convívio humano presencial com outros. Isaías não conseguia sincronizar os sons, a fala ainda lhe era impossível.

Por outro lado, tinha um sentido mais amplo, muito mais interessante e adequado ao seu novo estado de ser: Isaías era um telepata elétrico.

Recebia frequências de TV, de rádio e Wi Fi e conseguia decodificá-las, entender o conteúdo. Seu problema era filtrar tudo o que chegava.

Ele conseguia receber e exibir em seu tórax feito de um bloco só de cristal e agora transformado em tela, qualquer sinal que o atravessasse.

O velho cientista estava maravilhado com o que via. Sem saber muito o que fazer perguntou a Isaías:”Tem algo que eu possa fazer por você?”

Isaías segurou no peito a imagem de uma multidão nas calçadas no centro da cidade e disse, grunhiu, imprimiu em si: “Quero ver as pessoas”.